O Porquê de Odiar a Comunidade de Linux.


↳ Introdução

Preciso introduzir os leitores a respeito do viés que circunda toda e qualquer opinião sobre o nicho de distros e tecnologias Linux que eu venha a ter conforme o andamento de minhas pesquisas no tema. Adentrei-me neste mundo através do Debian 9 (Stretch), tempo em que ainda fazia sentido não recomendar a distro para iniciantes por ser difícil de ajustar e deixá-la pronta para uso — por exemplo, era preciso configurar os repositórios através de uma ferramenta de linha de comando para permitir pacotes e firmwares não livres, e se você não fizesse isso, o Debian se manteria em seu computador com drivers open-source e disponibilidade de pacotes bastante limitadas, numa época em que Flatpak ainda estava engatinhando —. Para usuários novatos, quando seguem um grupo de nicho na internet, há uma probabilidade razoavelmente alta deste grupo condicionar os iniciantes a seguir um caminho muito mais frustrante e torturante, precisando sempre pesquisar para resolver problemas de softwares e sistemas que, no fim, o usuário não precisava ter.

Sim, você não precisava ter tido o estresse de lidar com os problemas de trocar de sistema só por causa do servidor gráfico, ou do gerenciador de inicialização, ou até mesmo do ambiente de trabalho. Você, realmente, não gosta do KDE ou GNOME tanto assim; não prefere, honestamente, o Wayland ao Xorg e não precisava ter formatado o seu computador para migrar para um sistema rolling-release ou imutável. O que te falta é personalidade própria, um senso de originalidade. Você é carente e precisa se sentir pertencido a um grupo para validar a sua decisão (talvez desnecessária) de abrir mão do seu Windows completinho em troca daquele Arch Linux instável e nichado. E, tudo isso, somente para dizer a si próprio de que não é tão fracassado quanto aparenta ou dizem. Quer dizer, tudo bem que o seu conhecimento de nicho não te garante mais oportunidade de emprego em comparação com aquele boçal que usa Windows 10 e está cursando Pacote Office para conseguir estágio, mas quer saber? Você é importante! As pessoas daquela comunidade oculta do Reddit, ou dos chans aleatórios, te adoram! Precisa de mais o quê!?

↳ Prosseguimento

Mas também seria muito desonesto da minha parte apontar para os outros, visto que também faço parte disso. Por alguns meses, fiquei pulando de distro em distro porque nenhuma era boa o suficiente para a comunidade, que, por sinal, eu interagia frequentemente. Queria mostrá-los minha configuração do Arch Linux, minhas customizações do XFCE, KDE e BSPWM, ou compartilhar meus feitos e descobertas com metodologias de transferência de arquivos via servidor e hospedagem de servidores Minecraft usando ngrok. Todos os dias eu procurava a opinião alheia no Reddit, VivaOLinux e Telegram sobre o próximo sistema para instalar, sobre o quão ruim e danoso é o SystemD e o Snap, ou quem sabe tirar o Xorg porque tem erros de segurança que ninguém nunca soube me explicar. Se posso te dizer que tudo isso é uma grande perda de tempo, é porque eu já perdi o meu tempo com estas tolices.

Conforme experimentava diferentes distribuições Linux, pude perceber como as configurações eram as mesmas, e que, apesar de distribuições, na base, não deixam de ser Linux. Não importava qual distro fosse, eu sempre precisava atualizar e instalar pacotes, criar usuários e grupos e lhes dar permissões, gerenciar arquivos, configurar o grub via arquivo de texto, configurar o lightdm via arquivo de texto (ou, certa vez, tirar o gerenciador de login para logar via console, também chamado de “tty”), etc, etc. No fim, todos estes parâmetros não eram restritos ao Fedora, OpenSUSE, PeppermintOS, Antix, Slackware e afins: no fim, eu estava ajustando Linux, que é a base de todas as distribuições anteriormente citadas.

↳ Finalização

Apesar de toda a minha insatisfação com a comunidade, de como ela ajuda a frustrar a experiência de novos usuários, forçando-os a começar por opções mais difíceis (arch “btw”, non-SystemD, Wayland, non-Gnome, etc) e que lhes será menos proveitoso — afinal, um novato não entende as vantagens técnicas do Pipewire sobre o Pulseaudio, ele só quer ouvir música e ponto final —, ainda assim, sinto-me grato por esta comunidade tóxica existir, pois, querendo ou não, a minha obsessão pela distro perfeita e pela adesão por tecnologias de nicho diferentes me fizeram ter um entendimento maior sobre o escopo do universo de software livre e de código aberto, que vai além de somente Linux e voltou a me despertar o interesse por computação.

Quando cansei de mudar o tempo todo de sistema e me fixei no Debian, aprendi mais sobre usuários, hierarquia de sistema de arquivos, gerenciamento de pacotes e repositórios, criar scripts para facilitar algumas necessidades que a distro ou a DE me impunha, e por aí vai. Hoje estou usando Ubuntu, e como a Canonical resolveu ceder a versão PRO gratuitamente aos usuários domésticos, que me garante 10 anos de atualizações de segurança sem precisar atualizar a versão do sistema constantemente, não pretendo trocar tão cedo. As prioridades mudam e já não tenho tanto tempo de sobra para ficar formatando o disco, eu quero ligar o notebook, fazer minhas tarefas cotidianas e desligar.

Caso seja um iniciante e, por algum milagre, conheceu este artigo antes mesmo de conhecer as comunidades de Linux, aconselho-o que não as conheça. Sério, você não precisa disso. Converse com um ou outro mais experiente, partilhe suas experiências (talvez mostre este artigo para ele, sim?) e siga desse modo, pois lembro bem que a minha maior motivação para estudar mais e mais era ter duas pessoas extremamente talentosas (menção honrosa aos amigos Zenwith e Burddan) fazendo coisas incríveis com Linux, como usar Gentoo com DWM como sistema diário, configurando os próprios dotfiles, ou utilizando um NAS para hospedar arquivos e servidores privados, ou até mesmo usando Docker para consumir serviços em plataformas a partir de vários usuários. Sinceramente, perto destes caras, eu não conseguia me sentir realmente bom por instalar Arch Linux e particionar discos utilizando ferramenta de linha de comando, ou instalar Debian no modo Expert. Não importa quantas distros você já tenha testado, se usa libmusl em vez de libgcc no seu Void Linux, ou se usa o gerenciamento de pacotes do Nix no seu Artix, aos meus olhos, estes dois rapazes fizeram feitos dos quais realmente têm o meu respeito.