Você Complica Demais!


Olá, meu caro leitor.

Poucas semanas atrás eu estava fazendo um curso de conserto de celular, que, sorte a minha, contava apenas com 4 alunos, incluindo a mim. Foi muito fácil e rápido de pegarmos amizade, tanto que no café da manhã ficamos conversando e rindo um monte, ocorrido este que me deixou muito surpreso, dado o meu aparente aspecto antissocial. Já nas primeiras aulas, trabalhamos com soldagem e reparo em placa.

Eu ainda permaneço sem saber o que fazer da minha vida, mas infelizmente não posso me dar o luxo de relaxar e viver até que me venha uma ideia a respeito do que posso trabalhar. Sendo assim, pensei naquilo que gosto, tenho afinidade e conseguiria lidar tranquilamente: celular!

É o tipo de trabalho que combina comigo, pois se trata do conserto de um objeto em que possuo ampla familiaridade com seu sistema (no caso do Android) e é feito de maneira individual, sem exigir dinâmica de grupo ou qualquer outra bobagem que possa me incomodar.

Pois bem, estava fazendo esse curso, e uma das tarefas envolvia retirar o conector de carga, fazer uma limpeza nos buracos em que o encaixa e depois cobrí-los novamente com estanho. Dito e feito, não foi difícil retirá-lo.

Para limpar, me foi entregue uma malha dessoldadora da marca Yaxun, conhecida por não ser muito confiável e prestativa, porém barata (o que justifica ambos os aspectos negativos).

Passei um sufoco tentando limpar aqueles buracos, cada vez mais estressado e desesperançoso, pensando: "Se não consigo sequer limpar um buraco com estanho, talvez eu não deva levar esse futuro adiante..."

Fiquei meio pra baixo e só depois de um tempo eu pedi ajuda para a professora a fim de saber como poderia limpar. Ela veio me ajudar, e em poucos segundos, limpou.

Enquanto isso, internamente eu estava gritando comigo!

Ela me explicou que a ponta da solda, estando deitada sobre a malha, esquenta mais rápido, e caso ainda não mostre resultado, ora aplico mais fluxo, ora aumento a temperatura da solda, ora ignoro esse problema e taco estanho sobre o que já estava posto.

No dia seguinte, não conformado com minha derrota contra aquele maldito estanho, tentei novamente, só que dessa vez com uma placa diferente.

Concentrado e determinado, tirei o conector e comecei a limpeza. Novamente eu estava fracassando! Não limpava de jeito nenhum.

Perdi um bom tempo ali, enquanto meus colegas estavam trocando botões e desmontando sucatas antigas.

Já estressado, frustrado e derrotado novamente, pedi ajuda à professora. Ela veio, tentou e também não conseguiu. Disse que era só ignorar e jogar estanho por cima.

Beleza, próxima tarefa agora.

Nosso próximo dever era retirar um botão, que é um pouco mais difícil que o conector, pois você não pode aplicar alta temperatura e nem aproximar demais o canhão, isso porque se o plástico dentro do botão derreter, então você o estragou e agora terá de trocá-lo.

Passei um pouco de sufoco nessa, mas consegui. Enquanto isso, meus colegas estavam retirando microfones e consertando sucatas, ou revivendo suas partes.

No horário de almoço, reuniu-se um colega, a professora e eu para conversar enquanto comia, ao que aproveitei para desabafar sobre minhas dificuldades e minha frustração durante o percursso.

Esse meu colega me disse uma coisa que não vou esquecer, na verdade, irei guardar esse conselho para mim, pois estou reconhecendo mudanças em minha vida:

"Você complica demais as coisas, cara. Se tu não consegue fazer, tenta outros meios; se ainda assim não consegue, então não faz!"

Ele não usou essas palavras, mas foi essa a mensagem.

Desde então eu não paro de pensar nisso.

"Será que foi por causa disso que não consegui seguir minha rotina e hoje me encontro como se estivesse no fundo do poço, apesar de não estar tão ruim assim?"

Quando sigo uma rotina, eu crio algo bem detalhado e sistemático, a fim de ter máximo controle sobre minha vida. Recentemente, quando o fiz, deu super certo. Tinha horário para tomar banho, dormir, acordar, estudar, comer, fazer minhas tarefas domésticas, comer novamente, jogar, me entreter, etc.

Só que, seus detalhes eram tão rígidos e específicos, que um simples fator, uma simples falta de antecipação, o quebrou completamente.

Nessa minha rotina, eu havia deixado claro que, a partir de sexta-feira, eu deveria dar uma pausa e afrouxar as rédeas, dado em conta que minha mãe vem pra casa nos finais de semana e volta segunda-feira. Assim, pois, o fiz.

Porém, houve uma discrepância: em um certo dia, ela veio na quinta-feira e voltou só na terça-feira. Desde então eu dei uma pausa brusca e não fazia ideia de como retornar.

Hoje eu entendo que, no ambiente em que vivo atualmente, não dá para ter controle sobre, sequer, pouco menos da metade dos elementos. Também entendo que, quanto mais minucioso são as especificações de um sistema, mais problemas ele precisa ser capaz de antecipar e tomar medidas para mantê-lo funcionando. Quanto mais dados um sistema possui, mais propenso a ser violado ele é, e foi este fator que me quebrou.

O que eu deveria fazer, então?

Não sei. Permaneço estudando e fazendo algumas coisas que gosto, só que dessa vez, sem fundá-las num sistema rígido o qual devo seguir, pois preciso de condições rígidas para tal. Não se deve pôr um quadrado num retângulo, à menos que o quebre de tal forma que consiga encaixá-lo, porém, ainda assim haverão espaços para explorar as vulnerabilidades deste "pseudo-quadrado".

É o que eu deveria ter feito desde o início. Isso que dá querer fazer as coisas sem a devida maturidade ou informação. Claro que eu não tenho culpa, ninguém nunca me ensinou isso, nem sequer as inúmeras palestras, vídeos, podcasts, filmes e afins que venho consumindo com o tempo e tédio.

Eu até sigo alguns elementos de minha antiga rotina, porém, eles já não tem horário predefinidos para serem feitos, ao menos não alguns. Por exemplo, eu reservo somente a manhã para fazer coisas como: café, ler um livro, contemplar o dia, divagar profundamente, escrever, afins. Isso porque é o único período em que tenho pleno silêncio e sossego, haja visto que não moro mais sozinho.

Pois é. Não sei o que fazer, apenas sei que estou fazendo o que parece certo na minha cabeça. Talvez parar de encarar os deveres que estruturam sua rotina como tarefas com horários predefinidos, mas sim como objetivos à serem cumpridos até o fim do dia, te faça cumprí-los com êxito e, ao fim deste mesmo dia, proporcione-lhe uma noite satisfatória e um senso de dever cumprido.